Dezembro 31, 2007 by epilef

Enfim chegamos ao último dia do ano. Grande merda. Nem preciso dizer que é a coisa mais imbecil sair comemorando um ano novo, fazendo promessas e tudo o mais, quando viveu o ano inteiro como um filho da puta hipócrita. Pau no cu de todo mundo. E, especialmente, pau no seu cu, caro leitor, especialmente se você comemorou essa merda. Eu vou é passar meu ano novo ouvindo Coltrane! que, aliás, fez isso aqui que eu considero uma de suas maiores interpretações, com um solo muito bom de flauta do Dolphy. O Coltrane sim sabia viver. Chegava a dormir com o saxofone caído sobre a barriga. Se tem uma coisa que eu desejo pro ano novo é mais jazz, mais Coltrane, mais música, Berio, Sibelius, Bach.

E que todo mundo se foda também, mas isso é uma coisa que eu desejo sempre.

O TCE e a OSESP

Dezembro 13, 2007 by epilef

“Tribunal determina que Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Padre Anchieta devolvam R$ 16 milhões a cofres públicos”

Abro o Caderno 2 do Estadão e me deparo com isso aí em cima. Houve, aparentemente, um gasto irregular com a Osesp, entre 2002 e 2004; “a manutenção da orquestra, naquele período, foi feita por intermédio da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), e o dinheiro era proveniente da Secretaria de Estado da Cultura”. ‘Intermédio da TV Cultura’? Bom, quem pode dizer que é uma surpresa essa enorme burocracia?

Pois deviam ordenar também a devolução de 99% do salário do Neschling. O cara ganha cerca de R$400.000 por mês e ainda faz um trabalho vagabundo! Porra, por 400 paus por mês ele devia reger no mínimo (e mínimo mesmo…) como um Karajan!

Sobre Van Gogh

Novembro 22, 2007 by epilef

Um email não enviado

Contudo, Van Gogh se deixou levar pelo seu sofrimento. Poderia eu dizer, então, que suas cartas relativas a esse assunto (sofrimento, etc) não fazem sentido? Essa é a pergunta que me faço toda vez que leio suas cartas. E Van Gogh provou, pelo menos, que é mais fácil falar que fazer. Não posso dizer que ele estava errado, mas não conheço um homem na história da humanidade que não tenha se rendido à dor no final das contas. Eu ainda acredito muito mais em Schopenhauer, nesse sentido, do que em qualquer outro.

“Aquele que vive sinceramente e encontra aflições verdadeiras e desilusões, e que jamais se deixa abater por elas, vale mais que os que sempre vão de vento em popa, e que conheceriam uma prosperidade apenas relativa”.

Van Gogh se deixou abater. Por isso vale menos?

Eu me deixo abater. A única prosperidade que conheço parece ser a da dor, ou pelo menos é a única que vejo lançando braços em torno de mim.

Além de tudo, como posso dizer o que importa ou não? Tudo que posso dizer é que tenho uma leve desconfiança, e foi seguindo-a que cheguei até aqui. E, na verdade, foi assim que todos chegaram, embora seus egos ofusquem essa visão. Nós estamos apenas tateando no escuro, e vamos morrer sem ter encontrado uma vela.

“Nossa razão se obscurece ao considerarmos que as inúmeras estrelas fixas, que brilham no céu, não têm outro fim senão o de iluminar mundos onde reinam o pranto, a dôr, e onde, no melhor dos casos, só vinga o aborrecimento; pelo menos a julgar pela amostra que conhecemos”. (Schopenhauer)

Julho 9, 2007 by epilef

Pessoas que nunca tocaram nem mesmo na capa de um livro do Nietzsche, Pirandello, nunca leram uma linha de Dostoyevsky, Tolstoi, Joyce, Henry Miller, Whitman, Huxley, que nunca ouviram a 4ª sinfonia de Brahms, nem mesmo alguma melodia de Mahler, que acham que Puccini é um tipo de molho pra macarrão; pessoas mortas, incolores, que vivem vidas que já foram vividas, que se perguntam por que o mundo está assim sem nem mesmo terem lido um livro de história, comunistas que nunca leram o Manifesto ou “O Capital”; pessoas mortas que não apodrecem, que ainda andam, que ainda se masturbam e trepam, que anunciam a beleza da vida e do amor enquanto dançam ao som de uma música frenética e gratuita, se esfregam numa massa de pele e suor, e se perguntam aonde está o sentido de tudo isso.

Aonde está o sentido, meu Deus? Pessoas com escolhas, pequeno-burgueses, fantoches, psicólogos, médicos, padres, empresários, químicos, jornalistas, arquitetos, professores, rabiscos intermináveis, fábricas, engenheiros, espelhos.

Abra uma revista, seu filho da puta. Enfie a antena no rabo para conseguir uma boa imagem.

Vá com eles. Pegue o caminho de ouro que se estende até a beleza da civilização, e vá me dizer depois suas conclusões sobre a filogênese enquanto troca esse seu tampão sujo de sangue que contém a semente de mais um humano.

 

Janeiro 25, 2007 by epilef

Ouvindo: Charles Ives, Concord Sonata, I° Movimento- (Emerson)

“As pessoas continuam falando que a filosofia não progride realmente, que continuamos ocupados com os mesmos problemas filosóficos que preocupavam os gregos. É porque nossa linguagem permaneceu a mesma e continua nos seduzindo a perguntar as mesmas questões. Até quando continuar existindo um verbo `ser’ que parece funcionar do mesmo modo que o verbo `comer’ e `beber’, até quando continuarmos tendo os adjetivos `idêntico’, `verdadeiro’, `falso’, `possível’, até quando continuarmos a falar de um rio do tempo, de uma porção (expanse) do espaço, etc. etc., as pessoas continuarão tropeçando sobre as mesmas dificuldades enigmáticas e encontrar-se-ão olhando fixamente para algo que nenhuma explicação parece capaz de clarificar.

E mais do que isso, isso satisfaz uma espera pelo transcendente, porque na medida em que pessoas pensam que podem ver os “limites do entendimento humano”, elas acreditam, é claro, que podem ver além deles.” -Wittgenstein

Dois poemas de Rilke

Janeiro 24, 2007 by epilef

Minha vida não é essa hora abrupta
Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…

Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.

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As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.